
Formar leitores também é ampliar os olhares sobre o mundo, reconhecer diferentes histórias e compreender as relações que atravessam a sociedade. Na 14ª Festa Literária Internacional de Cachoeira – Flica, que acontece de quinta (5) a domingo (8), essa perspectiva ganha força com uma programação que aproxima letramento literário e racial durante o Mês da Consciência Negra. Durante o evento, debates sobre inteligência artificial, racismo algorítmico, ancestralidade e narrativas negras propõem reflexões sobre a conexão entre literatura, educação e tecnologia.
Entre os nomes que contribuem para essa discussão está Nina da Hora, cientista da computação, pesquisadora e ativista antirracista, que dividirá a mesa de abertura da Tenda Paraguaçu com a jornalista Miriam Leitão, na quinta (5), às 11h. Guiada pelo tema Penso, Logo… IA: Distopias à Vista? e mediada pelo especialista em cultura Zulu Araújo, a conversa traz os impactos da inteligência artificial na sociedade.
Na ocasião, Nina lança o livro Do Rosto ao Vetor: Uma História da Medição do Rosto, da Eugenia ao Algoritmo, no qual investiga o conceito de epistemicídio computacional, que trata do apagamento ou distorção de conhecimentos de grupos historicamente marginalizados.
Na visão de Nina da Hora, as desigualdades raciais presentes nos sistemas de inteligência artificial estão relacionadas aos dados usados para treiná-los e à forma como as pessoas são representadas. “A IA aprende com dados, e os dados que temos no Brasil carregam a nossa história: quem foi abordado pela polícia, quem conseguiu crédito, quem foi fotografado e quem nunca entrou nos registros. Um sistema treinado com isso aprende essas diferenças como se fossem normais e devolve o resultado com cara de decisão técnica. O erro começa antes da máquina, na forma como a gente classifica e representa as pessoas”, analisa.
Regulação da IA
Segundo o curador Marielson Carvalho, o letramento literário passa pela compreensão dessas transformações na forma como as pessoas se relacionam com a leitura. “Nós estamos vendo o quanto os algoritmos estão dando um nó nas legislações e como há uma necessidade de regulação da IA. Tem pesquisadores alertando sobre os perigos da superinteligência descontrolada. É preciso pensar nos benefícios e malefícios da IA e nos caminhos para lidar com ela no futuro”, pontua.
Também na quinta, às 19h, acontece o sarau Sued Nunes Não Anda Só, encontro que reúne vozes negras baianas em performances literárias e musicais refletidas por experiências coletivas de luta contra o racismo. Ao lado da cantora, participam Afropecado, Duda Santhana, MC Jaynne e Matheus Kawan. A proposta valoriza a produção artística da Bahia e do Recôncavo, realçando a diversidade de expressões culturais negras na arte.
Matheus Kawan comenta que o próprio título do sarau reforça a ideia de que nenhuma trajetória: “Acredito que nossas vozes e linguagens artísticas, embora distintas, irão se conectar a partir do senso de comunidade e pertencimento. Quando nosso eu se reflete em quem se parece com a gente, os caminhos se povoam pelas experiências compartilhadas”.
A produção assume um significado político, especialmente durante o Mês da Consciência Negra. Ele reforça que a presença da literatura afro-baiana na Flica, destaca o compromisso do evento com a inteligência ancestral. “Esse reconhecimento nos faz perceber que nossas vivências têm transcendido a dor, se afirmando cada vez mais em sua potência estética, artística e política. Temos muito a escrever, dizer, criar, oferecer e prosperar. Nenhuma história opressora pode se sobrepor a uma luta memorável”, declara.
Memória Afrofuturista
Na sexta (6), às 15h, chega a vez da mesa Inteligência Ancestral, Memórias Afrofuturistas, que trata das oralidades africanas e diaspóricas como formas de preservar saberes e imaginar novas possibilidades para o futuro. Integram o bate-papo o escritor afrofuturista Ale Santos e o professor e tradutor Cesar Sobrinho. A mediação será da professora e crítica literária Cristian Sales.
Para Ale Santos, reconhecer a inteligência ancestral também representa ampliar a compreensão sobre o que é tecnologia. “Povos e países que não têm o controle das máquinas, como as Big Techs dos Estados Unidos, são vistos como periferia, sendo que, na história da humanidade, muitas tecnologias vieram de povos amazônicos, africanos e latinos. Elas conseguem constituir um progresso social, harmônico, sustentável e biodiverso muito mais poderoso. As tecnologias culinárias, musicais e artísticas, por exemplo, ajudam a manter tradições, conectar indivíduos durante gerações”, explica.
Algoritmos
No sábado (7), às 18h, a mesa Inteligência Artificial e Racismo – Algoritmos da Branquitude encerra a programação com uma reflexão sobre como sistemas de inteligência artificial podem perpetuar estruturas históricas de poder, preconceitos e discriminações.
A discussão sobre o racismo nas tecnologias digitais e seus efeitos nas relações étnico-raciais no Brasil contará com a pedagoga e ex-ministra das Mulheres, da Igualdade Racial e dos Direitos Humanos Nilma Lino Gomes e do pesquisador Tarcízio Silva. A mediação ficará a cargo de Jamile Borges, vice-reitora da Ufba.
Ainda no sábado, duas vozes marcantes da literatura contemporânea internacional integram a mesa Diásporas Literárias – Passagens e Permanências: a ruandesa Scholastique Mukasonga e a venezuelana María Elena Morán. O debate propõe uma reflexão profunda sobre como os deslocamentos forçados, a migração e as crises políticas atravessam a criação artística e moldam identidades.
Correio.



